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MENSAGEM DO NATAL
Pietro Ubaldi
(Natal de 1931)

No silêncio da Noite Santa, escuta-me. Põe de lado todo o saber e tuas recordações; põe-te de parte e esquece tudo. Abandona-te à minha voz; inerte, vazio, no nada; no mais completo silêncio do espaço e do tempo. Neste vazio, ouve minha voz que te diz – ergue-te e fala: Sou eu.

Exulta pela minha presença: grande bem ela é para ti; grande prêmio que duramente mereceste. É aquele sinal que tanto invocaste deste mundo maior em que vivo e em que tu creste.  Não perguntes meu nome; não procures individuar-me. Não poderias; ninguém o poderia. Não tentes uma inútil hipótese. Sabes que sou sempre o mesmo.

Minha voz, que para teus ouvidos é terna, como é amiga para todos os pequeninos que sofrem na sombra, sabe também ser vibrante e tonante, como jamais a sentiste. Não te preocupes; escreve. Minha palavra dirige-se às profundezas da consciência e toca, no mais íntimo, a alma de quem a escuta. Será somente ouvida por quem se tornou capaz de ouvi-la. Para os outros, perder-se-á no vozear imenso da vida. Não importa, porém: ela deve ser dita.

Falo hoje a todos os justos da Terra e os chamo de todas as partes do mundo, a fim de unificarem suas aspirações e preces numa oblata que se eleve ao Céu. Que nenhuma barreira de religião, de nacionalidade ou de raça os divida, porque não está longe o dia em que somente uma será a divisão entre os homens: justos e injustos.

A divisão está no íntimo da consciência e não no vosso aspecto exterior, visível. Todos os que sinceramente querem compreender o compreendem. Cada um, intimamente, se conhece, sem que o próprio vizinho possa percebê-lo.

Minha palavra é universal, mas também é um apelo íntimo, pessoal, a cada um. Muitos a reconhecerão.

Uma grande transformação se aproxima para a vida do mundo. Minha voz é singular; porém, outras se elevarão, muito em breve, sempre mais fortes, fixando-se em todas as partes
do mundo, para que o conselho a ninguém falte.

Não temas; escreve e olha. Contempla a trajetória dos acontecimentos humanos: ela se estende pelo futuro. Quem não está preso nas vossas férreas jaulas de espaço e tempo, vê,
naturalmente, o futuro. Isso que te exponho à vista, é também coerente segundo vossa lógica humana e, portanto, vos é compreensível.

Os povos, tanto quanto os indivíduos, têm uma responsabilidade nas transformações históricas, que seguem um curso lógico; existe um encadeamento de causas históricas que, se
são livres nas premissas, são necessárias nas conseqüências.
A lei da justiça, aspecto do equilíbrio universal, sob cujo governo tudo se realiza, inclusive em vosso mundo, quer que o equilíbrio seja restaurado e que as culpas e os erros sejam corrigidos pela dor. O que chamais de mal, de injustiça, é a natural e justa reação que neutraliza os efeitos de vossos atos. Tudo é desejado, tudo é merecido, embora não estejais preparados para recordar o “como” e o “quando”. De dor está cheio o vosso mundo, porque é um mundo selvagem: lugar de sofrimento e de provas. Mas, não temais a dor, que é a única
coisa verdadeiramente grande que possuís. É o instrumento que tendes para a conquista de vossa redenção e de vossa libertação. Bem-aventurados os que sofrem, Cristo vos disse.

O progresso científico, principal fruto de vossa época, ainda avançará no campo material. Está, entretanto, acumulando energias, riquezas, instrumentos para uma nova e grande explosão. Imaginai a que ponto chegará o progresso mecânico, ampliando-se ainda mais, se tanto já conseguiu em poucos anos! Não mais existirão, na verdade, distâncias: os diferentes povos de tal modo se comunicarão que haverá uma sociedade única.

A mente humana, porém, troca de direção de quando em quando, vive ciclos, períodos, e, nessas várias fases, deve defrontar diferentes problemas. O futuro contém não só continuações, mas transformações: conseqüências de um processo natural de saturação. O vosso progresso científico tende a tornar-se e tornar-se-á tão hipertrófico — porque não
contrabalançado por um paralelo progresso moral —, que o equilíbrio não poderá ser mantido nos acontecimentos históricos. Tem crescido e, sem precedentes na história,
crescerá cada vez mais o domínio humano sobre as forças da natureza. Um imenso poder terá o homem, mas ele para isso não está preparado moralmente, porque a vossa psicologia
infelizmente é, em substância, a mesma da tenebrosa Idade Média. É um poder demasiadamente grande e novo para vossas mãos inexperientes.

O homem será dominado por uma tão alargada sensação de orgulho e de força, que se trairá. A desproporção entre o vosso poder e a altura ética de vossa vida far-se-á cada dia mais  acentuada, porque cada dia que passa é irresistivelmente para vós, que vos lançastes nessa direção, um dia de progresso material.

As idéias são lançadas no tempo com massa que lhes é própria, como os bólidos no espaço. Eu percebo um aumentar de tensão, lento porém constante, que preludia o inevitável explodir do raio. Essa explosão é a última conseqüência, mesmo de acordo com a vossa lógica, de todo o movimento. Desproporção e desequilíbrio não podem durar; a Lei quer que
se resolvam num novo equilíbrio. Assim como a última molécula de gelo faz desmoronar o iceberg gigantesco, assim também de uma centelha qualquer surgirá o incêndio.
Antigamente os cataclismos históricos, por viverem isolados os povos, podiam manter-se circunscritos; agora não. Muitos que estão nascendo, vê-lo-ão.

A destruição, porém, é necessária. Haverá destruição somente do que é forma, incrustação, cristalização de tudo o que deve desaparecer, para que permaneça apenas a idéia
que sintetiza o valor das coisas. Um grande batismo de dor é necessário, a fim de que a humanidade recupere o equilíbrio livremente violado: grande mal, condição de um bem
maior.

Depois disso a humanidade, purificada, mais leve, mais selecionada por haver perdido seus piores elementos, reunir-se-á em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em silêncio, retomando, renovada, o caminho da ascensão. Uma nova era começará; o espírito terá o domínio e não mais a matéria, que será reduzida ao cativeiro. Então, aprendereis a ver-nos e a escutar-nos; desceremos em multidão e conhecereis a Verdade.

Basta por agora; vai e repousa. Voltarei; porém recorda que minha palavra é feita de bondade e somente um objetivo de bondade pode atrair-me. Onde existir apenas a curiosidade, desejo de emoção, leviandade ou ainda céptica pesquisa científica, aí não estarei. Somente a bondade, o amor, a dor, me atraem.

Eu presido ao progresso espiritual do vosso planeta e para o progresso espiritual um ato de bondade tem mais valor que uma descoberta científica. Não invoqueis a prova do prodígio,  quando podeis possuir a da razão e da fé. É vossa baixeza que vos leva a admirar como sinal de verdade e poder, a exceção que viola a ordem divina. Se isso pode assombrar-vos e convencer-vos, a vós, anarquistas e rebeldes, para nós, no Alto, ela constitui a mais estridente e ofensiva dissonância; é a mais repugnante violação da ordem suprema em que repousamos e em cuja harmonia vibramos, felizes. Não procureis semelhante prova; reconhecei-a, antes, na qualidade da minha palavra.

A todos digo: Paz!!!

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Pietro Ubaldi
Escrita na Noite de Quinta-feira Santa, no Monte de Santo Sepulcro, diante de Verna
( Páscoa de 1943 )

Minha última mensagem, pela Páscoa de 1933, XIX Centenário da morte de Cristo,
dirigida, em dois momentos aos Cristãos e aos homens de boa vontade, foi minha derradeira
palavra naquele ciclo de preparação e esperança.
Já se encontram amadurecidos muitos acontecimentos ali preanunciados.
Até junto de vós retorno, nesta Páscoa de 1943, após dez anos, na violenta constrição
de uma dor que parecia impossível e, no entanto, se tornou realidade; venho trazer conforto
aos homens e aos justos, aqueles que crêem. Venho dizer, no seio tumultuoso da destruição
universal, a equilibrada palavra de paz. É esta, por isso, a mensagem da paz.

Tende fé e a fé vos fará superar todas as provas. Deus as permite para que aprendais a
usar de vossa liberdade e não para vossa destruição. Não vos desgarreis no caos, que é só
aparente. Imersos como estais no pormenor, na aflição, na fadiga, não enxergais e não
compreendeis o bem que existe além da aparência do mal.

Deus, no entanto, invisível e onipresente, está ao vosso lado, caminha convosco,
acompanha os vossos passos e vos guia; sempre vos provê, além da aparente desordem, com
a ordem imensa e eterna de Suas sábias leis. Sua mão se inclina para o humilde para o fraco,
para o vencido, a fim de erguê-lo de novo. Que vos conforte esta afirmação de uma divina lei
de justiça acima da lei humana da força.

Diante de dois caminhos vos deixei e fizestes a escolha. O mundo tem a prova que
livremente desejou.

Desde que vos deixei, o mundo tem percorrido velozmente o caminho da História. O
mais profundo caminho e a mais proveitosa lição se encontram na dor, escola e sanção de
Deus.

Repousareis. Assim é necessário, a fim de que os resultados do esforço desçam em
profundidade e sejam assimilados. Não vos detenhais, no entanto, nos pormenores do
momento ou do caso particular, que não constituem toda a vida. Esta se encontra nas grandes
trajetórias de desenvolvimento da Lei, em que se exprime o pensamento de Deus.

Somente se vos elevardes encontrareis a verdade universal, imóvel no movimento, a
justiça perfeita. Somente se vos transportardes acima das contingências do momento e do
lugar, achareis a completa liberdade, a tranqüilidade do absoluto, a paz que está acima da
vitória ou da derrota, a verdadeira paz, tão distante das coisas humanas.

Elevar-se é a grande meta da vida — elevar-se pelos caminhos do espírito — e esse
trabalho, sempre possível e livre, pode ser seguido e levado a termo, em qualquer época ou
lugar. Ninguém, em nenhum caso, pode tolher a liberdade de vos construirdes a vós mesmos,
avançando assim em qualidade e poder. E esta ascese é o que mais importa; é para atingi-la
que sofreis as provas da vida.

Após cada curva da História, obtém-se seu sumo, sua verdadeira colheita, que é a
ascensão.

As verdadeiras riquezas não se encontram fora de vós: estão em vosso íntimo e são
elas que vos fazem mais poderosos e felizes. São os vossos bons predicados, que nunca se
perderão; e não vossas posses materiais, que hão de desaparecer.

Qualquer que seja o turno de vencedores ou vencidos, suceder-se-ão, como vaga após
vaga, as multidões dos que sofrem e dos que gozam; e o triunfo pode ser instrumento de
perdição e a desventura, de ressurreição. Nenhuma vida, como nenhuma força, pode ser
anulada; tudo sobrevive, transformando-se. Substancialmente, a guerra a ninguém destrói.

Minha palavra, que está acima do mundo e de suas lutas, diz, repetindo a lei de Deus
que rege a vida: ai de quem possuindo apenas a superioridade da força, dela abusa,
esquecendo a justiça. Tudo é compensado na Lei e se paga com longas reações sucessivas,
de ódios e vinganças.

A palavra do equilíbrio ensina ao vencedor que não é lícito abusar da vitória, pois, por
isso, se paga; e indica ao vencido os caminhos do espírito, em cuja liberdade é possível
restaurar as próprias forças em face de qualquer escravidão exterior. O primeiro acomete as
fronteiras naturais da força, o segundo nas privações encontra a liberdade.

Voltará o sol a brilhar e a vida florescerá de novo, após a tempestade. É lei de
equilíbrio. O que importa, sobretudo, é que aprendais a lição. Recordai: que cada um guarde,
na profundeza do espírito, com o poder de uma convicção, de uma qualidade adquirida, o
fruto de tantas provações. E que a nova floração da vida não irrompa numa algazarra louca
de carne satisfeita, numa orgia de matéria triunfante.

O escopo da guerra e o conteúdo da vitória não se acham no triunfo material, mas num
triunfo no espírito, numa nova civilização.

Ai de vós, se não houverdes aprendido a dura lição e não mudardes de roteiro. Se, em
vez de subirdes pelos caminhos do espírito, voltardes a palmilhar as velhas estradas, haveis
de recair sob as mesmas dolorosas conseqüências, cada vez mais graves.

Minha voz é universal e se desvia das dissensões humanas. Tem as vezes, no entanto,
necessidade de descer. Diz-se, então com escândalo: Deus é parcial. Mas existe uma balança,
um reflexo de justiça, uma ordem também na História e nela devem atuar. A imparcialidade
absoluta seria indiferença e ausência de Deus. A justiça e a ordem, que são os princípios do
ser, devem descer também á Terra e aí operar, pesando sobre o mal e vencendo-o, no choque
das forças.

De outro modo, Deus estaria somente no céu, e não presente e ativo também no
mundo, entre vós, no meio de vossas lutas. Estas são guiadas por Ele, a afim de que não se
reduzam a absoluta destruição e caos, mas sejam instrumento de construção e de bem. Ele os
guia para que as provas e as dores do mundo redundem no fruto que é a ascensão de espírito,
objetivo de vida.

Deixo-vos, por isso, para conforto dos justos, estas verdades: o vosso esforço, mesmo
que não possa ser senão individual e isolado, quando é puro e sincero e se dirige ao supremo
escopo da elevação espiritual, também se encontra na trajetória da vida. E, por isso,
protegido e encorajado, porque essa é a trajetória ordenada pela lei de Deus. Por essa mesma
lei, segundo a qual o universo está construído e que lhe regula o funcionamento orgânico, as
forças do mal, embora todas as dificuldades e resistências, jamais poderão prevalecer sobre
as forças do bem.

É fatal, pois, o triunfo final do espírito e no espírito vencereis. Essa vitória vale a
imensa dor que é seu preço.

Amplamente já está sendo executado o plano divino da vida.

Pietro Ubaldi.

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