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Posts Tagged ‘Poemas’

Rumi – A LUA DE TABRIZ


Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua.
De lá desceu e fitou-me.

Como o falcão que arrebata o pássaro,
Essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei para mim, já não me vi:
Naquela lua meu corpo se tornara,
Por graça, sutil como a alma.

Viajei então em estado de alma
E nada mais vi senão a lua.
Até que o segredo do saber divino
Me foi por inteiro revelado:
As nove esferas celestes fundiram-se na lua
E o vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar.

Quando o mar quebrou-se em ondas,
A sabedoria divina lançou sua voz ao longe.
Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito.

Logo o mar inundou-se de espumas,
E cada gota de espuma
Tomou forma e corpo.

Ao receber o chamado do mar,
Cada corpo de espuma se desfez
E tornou-se espírito no oceano.

Sem a majestade de Shams de Tabriz
Não se poderia contemplar a lua.

Nem tornar-se mar.

 CARVALHO, José Jorge de.  POEMAS MÍSTICOS/ RUMI – Divan de Shams de Tabriz. Tradução e Introdução de José Jorge de Carvalho. São Paulo: Attar, 1996.

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RUMI – “Viaja dentro de Ti”


“Pudesse a árvore vagar
E mover-se com pés e asas,
Não sofreria os golpes do machado
Nem a dor de ser cortada.

Não errasse o sol por toda a noite,
Como poderia ser o mundo iluminado
A cada nova manhã?

E se a água do mar não subisse ao céu,
Como cresceriam as plantas
Regadas pela chuva e pelos rios?

A gota que deixou seu lar, o oceano,
E a ele depois retornou,
Encontrou a ostra à sua espera
E nela se fez pérola.

Não deixou José seu pai
Em lágrimas, pesar e desespero,
Ao partir em viagem para alcançar
O reinado e a fortuna?

Não viajou o Profeta
Para a distante Medina
Onde encontrou novo reino
E centenas de povos para governar?

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
E reflete, como a mina de rubis ,
Os raios de sol para fora de ti.

A viagem te conduzirá a teu ser,
Transmutará teu pó em ouro puro.

Ainda que a água salgada
Faça nascer mil espécies de frutos,
Abandona todo amargor e acidez
E guia-te apenas pela doçura.

É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres:
Toda árvore ganha beleza
Quando tocada pelo sol.”Viaja dentro de Ti

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Rumi – O Poeta Embriagado de Deus


Viemos girando
do nada,
espalhando estrelas como pó.
As estrelas puseram-se em círculo
e nós no centro dançamos com elas.
Como a pedra do moinho,
em torno de Deus
gira a roda do céu.
Segura um raio dessa roda
e terás a mão decepada.
Girando e girando
essa roda dissolve
todo e qualquer apego.
Não estivesse apaixonada,
ela mesma gritaria – basta!
Até quando há de seguir esse giro?
Cada átomo gira desnorteado,
mendigos circulam entre as mesas,
cães rondam um pedaço de carne,
o amante gira em torno
do seu próprio coração.
Envergonhado ante tanta beleza
giro ao redor da minha vergonha.
…………………………………………
Ouve a música do samá.
Vem unir-te ao som dos tambores!
Aqui celebramos:
somos todos Al-Hallaj dizendo: “Eu sou a Verdade!”
Em êxtase estamos.
Embriagados sim, mas de um vinho
que não se colhe na videira;
O que quer que pensem de nós
em nada parecerá com o que somos.
Giramos e giramos em êxtase.
Esta é a noite do sama
Há luz agora.
– Luz ! Luz!
Eis o amor verdadeiro
que diz a mente: adeus.
Este é o dia do adeus.
– Adeus ! Adeus !
Todo coração que arde
nesta noite
é amigo da música.
Ardendo por teus lábios
meu coração
transborda de minha boca.
Silêncio!
És feito de pensamento, afeto e paixão.
O que resta é nada
além de carne e ossos.
Por que nos falam
de templos de oração,
de atos piedosos?
Somos o caçador e a caça, Outono e primavera,
Noite e dia,
O Visível e o Invisível.
Somos o tesouro do espírito.
Somos a alma do mundo,
livres do peso que vergasta o corpo.
Prisioneiros não somos
do tempo nem do espaço
nem mesmo da terra que pisamos.
No amor fomos gerados.
No amor nascemos

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DA MULHER


DA MULHER

ESCUTA, formosa filha do amor, as instruções da prudência, e deixa que os preceitos da verdade penetrem bem fundo em teu coração; assim, os encantos de tua mente darão mais lustro à elegância de tuas formas; tua beleza, tal como a rosa, guardará sua doçura mesmo depois de ter murchado. Na primavera de tua juventude, na manhã de teus dias, quando os homens te olham com deleite, e a natureza murmura em teus ouvidos o significado de seus olhares, ah! ouve com cautela suas palavras sedutoras, guarda bem teu coração e não ouve sua voz suave e persuasiva.
Lembra que és a companheira razoável do homem, não a escrava de sua paixão; a finalidade de teu ser não é de simplesmente gratificar seu licencioso desejo, e sim de ajudá-lo nas lutas da vida, acalmá-lo com tua ternura e recompensar suas atenções com doce solicitude.
Quem é aquela que conquista o coração do homem, que o subjuga ao amor e reina em seu peito?
Olha! Ali vai ela com virginal doçura, com a inocência em sua mente e o pudor em sua face.
Suas mãos buscam ocupação, seus pés não se comprazem no perambular ocioso.
Veste-se com bem cuidada simplicidade, alimenta-se com temperança; humildade e mansidão são como uma coroa de glória cingindo sua cabeça.
Sua voz é música, a doçura do mel flui de seus lábios.
O recato está em todas as suas palavras; em suas respostas há brandura e verdade.
Submissão e obediência são as lições de sua vida; paz e felicidade são sua recompensa.
Adiante de seus passos caminha a prudência; a virtude guarda sua mão direita.
Seu olhar revela suavidade e amor; mas a discrição, com seu cetro, repousa em sua fronte.
A língua do licencioso se cala em sua presença; o respeito à sua virtude o mantém calado.
Quando grassa o escândalo e a fama de sua vizinha corre de boca em boca, se a caridade e a boa índole não falam por sua boca, o dedo do silêncio lhe sela os lábios.
Seu peito é a mansão da bondade e por isto ela não suspeita de que haja maldade nos outros.
Feliz será o homem que a tome por esposa; feliz a criança que a chamará de mãe.
Ela preside a casa e nela há paz; comanda com critério e é obedecida.
Levanta-se pela manhã, reflete sobre seus assuntos e indica a cada um seus deveres.
O cuidado de sua família é todo o seu deleite e somente a isto ela aplica seu empenho; a elegância mesclada à frugalidade está presente em sua casa.
A prudência de sua administração é uma honra para seu marido, e ela ouve os louvores com secreta alegria.
Ela infunde sabedoria na mente de seus filhos; molda seu comportamento pelo exemplo de sua própria bondade.
A palavra de sua boca é a lei de seus filhos, o movimento de seus olhos leva-os à obediência.
Ela fala e seus serviçais voam; ela aponta e a tarefa é cumprida; pois a lei do amor está em seus corações, sua bondade empresta asas a seus pés.
Na prosperidade não se envaidece, na adversidade cura os ferimentos do destino com paciência.
As dificuldades de seu esposo são aliviadas por seus conselhos e suavizadas por suas carícias;ele descansa o coração em seu regaço e recebe conforto.
Feliz o homem que a tornou sua esposa; feliz a criança que a chama de mãe.Imagem.

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